Assim falam sobre o meu avô que não cheguei a conhecer...
De “Uma Carta de Longe” de Luiz Pacheco
“…Do mecenas Manuel Vinhas, falo pelo que me toca. Durante anos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem me conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum.
Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão delicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho.
“O Mecenas paga, não dá ordens”, costumava dizer Mestre Almada Negreiros. Apreciava criticamente o que eu fazia, sem paternalismos tutelares, que são tão aborrecidos de ouvir e pior de aceitar, sempre os enjeitei. Uma vez me disse, apenas, a título de reparo benévolo, e talvez contristado (como tal o aceitei, indirecto elogio a agradecer), “que eu era pouco fecundo” e de facto. Creio que procedia assim com todos aqueles, e faziam bicha no seu escritório da Almirante Reis…, que acolhia com magnífica dignidade e cordial simpatia – da sua pessoa e da bolsa. Fez falta a muitos de nós, eu que o diga.
Manuel Vinhas, o Escritor: se em tempos tive ocasião, na extinta revista angolana, “Notícia”, de me pronunciar favoravelmente sobre a “plaquette”, “Falar Amanhã” mais à vontade me sinto agora para saudar o aparecimento de “Profissão Exilado”.
Em forma de diário íntimo, um depoimento cobrindo um ano de vicissitudes, ora num tom familiar, ora em pequenos poemas em prosa, ora em apontamentos de humor, trespassados de cáustica ironia. Um esgar de amargura sincera aqui e ali, mas sempre pudicamente contido.
Uma obra tão na tradição memorialística portuguesa, uma carta de longe, eis quanto a mim a melhor definição para “Profissão Exilado”: um longe que tem a ver com a distância física mas também com o desfasamento temporal a que estão sujeitos os exilados, incapazes de se aperceberem de uma evolução nacional de que apenas estarão informados em segunda mão (e sectária), tomando os seus desejos por realidades, impotentes para se darem conta do que na verdade se passou e passa.
Ali deparamos com páginas soberbas, pequenas aguarelas ricas de colorido e sentido de observação trechos de crítica de Arte, um livro cheio de movimento e comovente de vida. Basta-me transcrever o seguinte trecho que fico roído de inveja por não ter sido eu a escrevê-lo:
“Gostam os meus olhos das rugas do teu rosto, cicatrizes de uma vida comum; os teus cabelos brancos parecem-me só mais loiros, mas, claro, é a bandeira da mocidade; o teu olhar é o mesmo, bom, verde e sossegado; no teu corpo sempre grácil recordo fogueiras ainda não extintas; são os Invernos que amadurecem os sentimentos; está em ti o meu passado e o meu presente e nas raízes que ambos criámos, o futuro; a memória dos filhos e netos será a nossa permanência”
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3 comentários:
Não sei se era seu avô...Mas ManueL vinhas foi alguem que não conheci, mas foi um verdadeiro SENHOR em tudo...
Sou angolano, colaborador do NOVO JORNAL e escrevi isto, há bem pouco tempo em Angola...E só reparei de uma forma simples, uma enorme injustiça!
Agradeço que divulgue a seus familiares, e orgulhe-se do legado que recebeu!
http://recordacoescasamarela.blogspot.com/2009/02/o-senhor-cuca-novo-jornal-luanda-agora.html
Já agora, meu nome é Fernando Pereira
Bom dia Fernando,
Agradeço o seu contacto. Sou de facto neta de Manuel Vinhas, filha da sua filha Alice.
Vou passar o texto que nos enviou ao resto dos meus tios.
Nasci em 1978 portanto não cheguei a conhecê-lo mas é com agrado que recebo as mensagens de apreço pela sua pessoa, principalmente depois deste livro "Negócios Vigiados"
O orgulho cresce todos os dias.
Obrigada.
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